O sexto mês distante

Cogne: a primeira (pequena e bela) cidade que visitei.

 Mais um dia 9 chegou; passou e com este veio a contagem de mais um mês longe de casa. Agora, são 6 meses em Turim; 6 meses em um país diferente e com um turbilhão de experiências – tanto boas quanto algumas ruins – acumuladas na memória. A passagem do tempo é tão confusa e diferente quando se está vivendo distante; os meses voam; a vida corre tanto aqui e na querida terra de origem ao mesmo modo em que parece tudo apenas começou ontem.
 Os choques – sejam culturais, sociais ou linguísticos – aparecem constantemente. Desde o início eu tinha me proposto este desafio porque sair do constante estado de conforto é; muitas vezes, preciso para uma efetiva autoanálise. A saída do comodismo nunca foi tão forte; nunca foi tão rápida ou brusca como tem sido em muitos momentos.

Um risotto al pesto um pouco adaptado por mim.

 Redescobri em mim coisas que há muito tempo não pratica apenas pela praticidade ao meu redor: a culinária; por exemplo, virou um grande interesse. Confesso que deveria ter me focado nisto antes porque minha mãe é confeiteira (além de trabalhar com outras áreas da panificação) e sempre tive à disposição alguém para me auxiliar mas obviamente era mais oportuno somente apreciar o resultado final. Por outro lado, a distância me fez pegar o gosto por pesquisar mais sobre diversas receitas, me interessar pelo valor nutricional daquilo que eu como e me pego muitas vezes lendo sobre isto nos horários mais inusitados!

O Café des 2 Moulins e Amélie.

A pequena cidade de Fenestrelle e minha primeira neve.

 Por aqui, dependo apenas de mim. Por aqui, preciso saber lidar com o novo e aproveitar o momento apesar da ausência de quem esteve sempre junto para poder fazê-lo com as novas presenças. O percurso – por mim mesmo – me traz sempre boas lembranças. Parte da minha viagem a Paris, em outubro, com o percurso pelo bairro de Montmartre e a famosa Rua Lepic (onde tem o "café da Amélie" ou o "Café des 2 Moulins") foi feito sozinho porque meu grande amigo Guto teve de ir embora antes de mim. Não falo francês; mas me virei. Estava sozinho; mas aproveitei intensamente e a descoberta foi ainda mais intensa.
 Com as novas amizades, a descoberta foi de algo muito esperado e igualmente atrasado em suas previsões meteorológicas: a neve! Esta veio um tanto tarde – quase no fim do inverno – mas conseguimos conhecê-la. A pequena, porém calorosamente querida, cidade de Fenestrelle teve uma tarde animada por nós em contraste com todo este gelo. Sobre viagens, a minha primeira foi para Cogne e fica nas regiões de fronteira entre França e Suíça (com direito a um diferente sotaque afrancesadamente italiano).

Gelateria Monginevro, La Romana e La Voglia Matta <3

 Não poderia deixar de lado uma das maiores famas da Itália. Conhecer cada uma das gelaterias é uma atividade quase nada prazerosa! O primeiro e grande gelato que comi foi na falecida Monginevro (mas infelizmente fechou); outra muito famosa é a La Romana; mas o meu coração tem um enorme espaço para apenas uma: La Voglia Matta (ou "a vontade louca" em português); com gelatos gigantes por apenas 2 euros – tendo o simpaticíssimo Giovanni como dono – não tem como não amar. Também, se fosse para recomendar a alguém alguns sabores, diria a combinação de tiramisù (parece um bolo!), café ou chocolate e nutella (este último ele o coloca na hora!).

O meu canto em Turim.

 Apesar das ótimas vivências, a vida acadêmica não tem sido nada como o esperado. É impossível vir sem ter criado certas expectativas – mesmo tendo tentado não criar muitas – e me encontrar confuso ou incompreendido é um tanto desanimador. Ainda não consegui compreender corretamente o jeito de desenvolver o projeto de design aos moldes italianos; também ainda não tive a oportunidade de ter contato com bons professores ou compreensíveis com os estrangeiros. De qualquer modo, pode ser que o método não conflituoso àqueles que são de fora mas funcione muito bem a eles. Não sei dizer ainda. Mas tudo serve como auxílio para enxergar os esforços e o quão boa em design é a minha universidade de origem.
 Entre as oscilações que se baseiam esta grande montanha-russa emocional que é um intercâmbio; eu me encontro e preciso reunir minhas forças e otimismos porque o novo semestre acadêmico está apenas começando.

Até mais!

Dois dias em Veneza

Em algum canal de Santa Croce
  E então a oportunidade de visitar Veneza me apareceu com mais uma dessas promoções com preços irresistíveis! E desta vez não poderia perdê-la de jeito nenhum, já que ida e volta deram o total de €5 de ônibus! Foram um pouco mais de 5h45min de viagem mas posso afirmar que o percurso foi muito agradável e quentinho (um viva ao sistema de aquecimento!) e fiquei por lá do dia 11 ao dia 12 de dezembro.
  Para que a viagem ficasse ainda melhor, consegui um couchsurfing (a tradução seria próxima à "surfe de sofá"; mas em outras palavras, hospedagem gratuita) com o pessoal do edital de Veneza e já conheci metade deles no apartamento (porque só tem 10 pessoas do Ciência sem Fronteiras vivendo por lá) e foram todos muito solícitos e simpáticos! Eles moram em Mestre, uma cidade ao lado de Veneza e essa é muitas vezes considerada como parte ou um bairro da cidade. Por outro lado, passei pelo maior frio que eu senti até agora por lá! Ainda que eu estivesse bem vestido para o frio, isto não foi o suficiente. ç.ç

Mapa do roteiro de bairros visitados

 Eu e minha amiga This visitamos 7 bairros e fiz um pequeno roteiro a partir das dicas do guia de bairros de Veneza que encontrei no site da Airbnb. Conhecemos Santa Croce; San Polo; Dorsoduro/Accademia; San Marco, Castello, Cannaregio e a ilha de Murano.
 Em Veneza é necessário caminhar muito, então tem de ir preparado para fazer muita caminhada e se perder nas vielas da cidade – o que não é muito difícil – mas garanto que é uma das graças da cidade! Para visitar as ilhas de Giudecca, Murano e Burano é necessário utilizar o Vaporetto que é uma embarcação que serve de um meio de transporte público. Já aviso que bilhete não é nada barato (custando €7,50) e caso opte pelo bilhete que dá acesso também aos outros transportes (ônibus que vão de Mestre a Veneza ou o bonde elétrico que liga a ilha de Tronchetto ao Piazzale Roma) pelo perído de 24 horas este custa €20. Bem, Veneza não é nada barata e até o McDonald's custa um pouco acima do normal. ;p

Santa Croce

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SANTA CROCE // ARTESANATO – GRANDE CANAL

 
Este foi o primeiro bairro em que começamos a percorrer porque é ao lado do Piazzale Roma – onde é o terminal de ônibus e o limite do transporte terrestre – também ao lado da ilha de Tronchetto (onde geralmente é a parada de ônibus de turismo e estacionamento) e dá para se acessar o bairro de Cannaregio pela Ponte della Costituzione (aquela bem moderna, polêmica* e um tanto escorregadia porque tem partes de vidro). É um canto com muito muitos canais, cafés agradáveis e quiosques vendendo artesanatos e máscaras. Os lugares que me interessam ali foram o palácio Ca' Pesaro, o Fontego dei Turchi (sede do Museu Civico de história natural) e a Igreja de San Stae.

Santa Croce

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SAN POLO // ARTESANATO – CAFÉS – QUIOSQUES

 
É aqui onde está a igreja mais antiga da cidade; a igreja San Giacomo di Rialto, também a famosíssima Ponte di Rialto mas infelizmente estava em reformas e não podemos vê-la muito bem. Em compensação, passamos um tempo pelo praça Campo San Polo onde estava tendo uma feira e também pista de patinação; com muitas crianças se divertindo por lá.

This e frio durante o fim de tarde

Feira natalina no Campo San Polo

  E também foi em San Polo que encontramos algumas lojas de máscaras surpreendentes e macabras! Uma delas foi a La Bottega dei Mascareri (S. Polo 2720) e é muito famosa porque alguma de suas máscaras já apareceram em muitos filmes – como "Eyes Wide Shut" de Stanley Kubrick – livros e também tem várias fotos de muitas celebridades com algum produto ou com os donos.
 A sensação de admirar as máscaras é um tanto confusa e irônia. Eu me encontrei admirado com os detalhes, acabamentos e beleza; mas também me encontrei com uma certa sensação de receio das mesmas porque passam uma sensação um tanto assustadora. Seria a mescla entre o belo* * e o grotesco* *?!

La Bottega dei Mascareri

La Bottega dei Mascareri

Medico della Peste

 Encontrei algo que – há um bom tempo – já me deixava muito curioso sobre a história enquanto caminha por San Polo: o médico da peste, na forma de um grande manequim e outras várias marionetes! Este foi um médico que tratava da peste negra em cidades com muita incidência da epidemia. Muitas vezes eram conhecidos por direcionar os pacientes a um falso tratamento ou cura e normalmente não eram médicos experientes ou treinados; e muitas vezes também eram jovens profissionais buscando estabelecimento na carreira. E o motivo destas máscaras e roupas?! Estas serviam de proteção contra o ar fétido que era considerado como o causador da doença; muito usada entre o século 17 e 18 com apenas dois orifícios perto das narinas. O visual sombrio dos trajes e da história me chamam muito a atenção!

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DORSODURO/ACCADEMIA // AGITADO – CAIS DE PEDRA – GRANDE CANAL

 Um bairro com muita influência artística e com uma ótimo vista pra o grande canal. Por ali existe a Collezione Peggy Guggenheim – um museu que se encontra também no grande canal e teve sua inauguração em 1951 no Palazzo Venier dei Leoni. Peggy* foi uma das colecionadoras com maior destaque no século XX; foi ex-esposa de Max Ernst* (um importante artista do movimento surrealista) e o acervo inclui obras de Picasso, Salvador Dalí, Magritte e até mesmo de Pollock!
 Também conheci a Basilica di Santa Maria della Salute; construída por volta de 1630 aos arredores da Punta della Dogana (esta é uma área triangular que divide o Grande Canal e o Canal de Giudecca) e possui o estilo barroco*. Para ir ao famoso bairro de San Marco, basta passar pela bela Ponte della Accademia!

Ponte dell'Accademia

Basilica di Santa Maria della Salute

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SAN MARCO // CENTRAL – GRANDE CANAL – FESTIVO

 Acredito que seja o bairro mais movimentado de Veneza já que está no coração da cidade. Aqui se tem a maior praça veneziana – tendo muita beleza e unidade esteticamente arquitetônica – e é a única que esta denominação porque as outras são chamadas de "campo".

Piazza San Marco

 A Basilica di San Marco* é a principal igreja de Veneza; inicialmente foi construída em 832 e os restos mortais do padroeiro de Veneza – São Marcos Evangelista – foram trazidos da cidade de Alexandria à basílica  por mercadores venezianos. Sua construção da sua versão atual teve início em 1063 com conclusão em 1617, sendo também um marco da presença do estilo bizantino* por ali. A maior expressão desta arte é a utilização dos mosaicos; tendo também a criação de ícones – pinturas sacras – geralmente realizados em madeira; outro grande exemplo inovativo era criação de várias cúpulas.
 Ainda na praça se encontra a Torre dell'Orologio ("Torre do Relógio"); foi construída entre 1496 e 1499 e é um importante edifício da arquitetura renascentista* * – esta é ligada a uma nova visão empírica, científica em relação ao homem e a natureza; também focada ao revalorização da racionalidade (humanismo) e da arte da antiguidade clássica (classicismo). A parte central do relógio é feita de ouro e esmalte azul e mostra apenas o horário; mas também o dia, as fases da lua e os signos!
 Enfim, o Palazzo Ducale é o marco do estilo gótico* veneziano; com construção entre 1309 e 1424 e era a antiga sede do Doge de Veneza (algo como o dirigente máximo da República de Veneza). O gótico italiano* é um pouco diferente daqueles de origens francesas, inglesas ou alemãs porque ainda não se desprende de influências de algumas tradições da arte romana, bizantina ou clássica; por exemplo, o estilo italiano resistiu contra a eliminação de paredes densas pelas quais eram trocadas por vitrais e rosáceas.

Torre dell'Orologio e a Basilica di San Marco


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CASTELLO // PARQUES – JARDINS – SERENIDADE

 Não sobrou muito tempo para visitá-lo durante o dia e conhecer o ambiente calmo com os belos jardins da Bienal de Veneza; que é uma referência no cenário das artes contemporâneas. Por outro lado, conhecemos à noite o Laboratorioccupato Morion: é uma espécia de centro social onde é um edifício geralmente é ocupado para que sirva como um local de atividades alternativas ligadas à cultura, artes (e também ofícinas), política, música e afins. Foi muito legal e diferente porque estava tocando jazz, soul e outras músicas não muito "populares" (tocou até Etta James! <3) ; também tinha um espaço com pebolim – seria totó ou futebol de mesa?! – uma estante com livros e um homem lendo atentamente enquanto a música rolava! Ele nem sequer esboçava nenhum sinal de desaprovação sobre ter gente gritando ou jogando ao lado dele.
 O importante ali era a diversão e o lugar me pareceu de uma energia muito positiva; era uma certa união juvenil compartilhando da mesma vontade de mudanças e do preenchimento cultural neles mesmos.

Venezianos e estrangeiros; entre o pebolim e os livros no Laboratorioccupato Morion.

As politizadas paredes do Laboratorioccupato

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MURANO // ARTESANATO EM VIDRO – TRANQUILIDADE – LONGE DO CENTRO

O segundo dia ficou reservado para visitar a ilha de Murano. Já que é preciso pegar um vaporetto porque se encontra mais distante das ilhas centrais, decidimos partir para lá mais cedo para que desse tempo de voltarmos sem perder o nosso ônibus de volta a Turim. Murano é uma ilha muito tranquila e com a tradição da produção de artesanato em vidro a sopro. É uma delícia caminhar por lá sem todo aquele movimento de turistas para admirar as ruelas e casas do local; também tem a Torre do Relógio e o Farol de Murano. Além disto, pudemos assistir gratuitamente às demonstrações de artesanato em uma fábrica chamada Ellegi Glass. Foi muito interessante ver a destreza e habilidade do artesão na criação! Por exemplo, ele nos demonstrou o desenvolvimento de um cavalo e tinha um pouco mais de 1 minuto para terminá-lo; se não, teria de refazê-lo totalmente (ao contrário de vasos porque se pode reaquecer somente uma parte e então corrigi-la).

Nas proximidades do Farol de Murano
  

 

  

 
Ainda tenho muito para conhecer desta sereníssima. Não deu tempo de visitar a ilha de Burano, Lido (conhecida pelas praias) e – quem sabe – um dia visito a assombrada ilha de Poveglia?!

Até mais! :)